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7 de Junho de 2020

Uma única lição de economia - Parte I

O estado natural do homem é a pobreza, não a riqueza.

Anne Silva, Advogado
Publicado por Anne Silva
há 5 anos

Por: Flavio Morgenstern

Se fosse possível escolher uma única lição de economia a ser ensinada para todos os não-economistas, sobretudo as pessoas que rejeitam o liberalismo sem o conhecer (os esquerdistas, social-democratas, socialistas, marxistas, intervencionistas etc), escolheria a seguinte: o estado natural do homem é a pobreza, não a riqueza.

Aparentemente banal, tal verdade é ignorada ou mesmo invertida pela maioria absoluta das análises políticas, econômicas, morais e filosóficas. Sobretudo as opiniões cotidianas mais apressadas e menos estudadas.

Quando se critica o liberalismo (ou o apelido faceto que Marx deu à filosofia da liberdade: capitalismo), sempre são ouvidas as mesmas palavras: é um sistema de desigualdade e exploração.

A primeira crença é verdadeira, mas colocada de forma errada. A palavra “desigualdade” é preferida pelos não-liberais por sua carga psicologicamente negativa. O chiste é aceito equivocadamente por liberais: não apenas o prefixo des- é uma negação, como costuma indicar uma posterioridade temporal, como se tivesse existido um agradável momento de igualdade anterior ao surgimento do liberalismo, por ele então destruído.

No que a crença tem de verdadeira, tem de repudiável. Se houve tal “igualdade” anterior ao liberalismo, era uma péssima igualdade, em que todos são igualmente pobres.

Origem da riqueza

“A primeira lei da economia é a escassez. A primeira lei da política é ignorar a primeira lei da economia.” – Thomas Sowell

Uma das primeiras obras da humanidade a tratar do tema foi O Trabalho e os Dias, de Hesíodo (??????, cerca de 700 a. C.), em que o problema da escassez aparece pela primeira vez. Murray Rothbard afirma corretamente que Hesíodo foi o primeiro economista, em Economic Thought Before Adam Smith. Hesíodo, dando lições de agricultura a seu irmão preguiçoso, descreve sua pequena comunidade rural como um “lugar triste... Ruim no inverno, duro no verão, nunca bom”. Há um vasto abismo entre os desejos infinitos de um homem e os recursos de que o mundo dispõe para satisfazê-lo.

Novamente, recaímos de cara com o óbvio quando assim exposto, mas completamente ignorado ou invertido pelo pensamento antiliberal.

Dependendo apenas da terra e buscando entender as leis naturais de funcionamento do mundo (os dias, as estações, as técnicas de agricultura, o entendimento com os deuses), Hesíodo encara uma existência de trabalho árduo, enquanto seu irmão, que julga ser obrigação do primogênito trabalhar por ele, apenas exige o trabalho alheio.

Como o famoso slogan de Marx, o irmão de Hesíodo parece acreditar que a cada um o trabalho deve ser exigido de acordo com sua capacidade, mas os frutos do trabalho devem ser “distribuídos” de acordo com a sua necessidade. Sem um programa adequado (o lema é apenas um slogan, afinal), sem uma definição mínima do que seria “necessidade”, recaímos no mais brutal e inseguro totalitarismo, como bem viu e sentiu Ayn Rand, retratando o resultado brilhantemente em seu romance A Revolta de Atlas (muito bem apresentado por Rodrigo Constantino, em A Fábrica da Inveja).

(Curiosamente, este é um fator que a esquerda, assim que se converteu ao “progressismo” e ao “politicamente correto”, entendeu bem nas relações humanas sem bens imateriais: não se deve exigir algo do corpo de alguém à força – por isso a grita do movimento feminista em manifestações como a Marcha das Vadias. Todavia, a esquerda ignora completamente as mesmas premissas que tenta ensinar quando se trata de bens frutos do trabalho alheio.)

Na verdade, o que o preguiçoso irmão de Hesíodo (e Marx e toda a tradição esquerdista, incluindo a não-marxista) ignora é que a riqueza não existe na terra ou no ar como algo que alguém simplesmente toma para si: ela é criada, e criada através do trabalho. Os componentes para todas as conquistas tecnológicas e civilizatórias sempre existiram na natureza. Sem o engenho humano, o trabalho criativo (que, ignorado pela teoria marxista – em si um trabalho criativo – faz com que o trabalho manual possa produzir mais e/ou em menor tempo), a matéria-prima tem pouco valor. A matéria-prima da última revolução tecnológica foi o silício: o segundo elemento mais comum na superfície terrestre.

Se a riqueza é criada, é natural que a “desigualdade” surja a partir do momento em que alguém cria algo vantajoso (e por isso desejável). No princípio, todos precisam plantar grão por grão. Assim que uns poucos criam a irrigação, é vantajoso que o fenômeno chamado “desigualdade” passe a ocorrer – mas é apenas assim denominado comparando-se o indivíduo ou grupo criador com aqueles que não conhecem o progresso ou riqueza criados. O fenômeno sociológico é descrito com palavras depreciativas como se o enriquecimento, então, fosse algo ruim, imoral, digno de culpa. Simplesmente porque o que alguém cria não é então multiplicado por mágica a todos (e este é o ponto em que Ayn Rand nota semelhanças entre Marx e Cristo).

De Rousseau comparando a moral do bom selvagem com os vícios da França absolutista ao intervencionismo econômico com vias a “redistribuir” renda como se toda desigualdade fosse culposa, este é o princípio que distancia a visão social de mundo de um correto entendimento da realidade.

Leia: PARTE II

FONTE

16 Comentários

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Obrigado por compartilhar esta reflexão muito bem trabalhada. continuar lendo

O autor não leu nada de Marx (ou leu e não entendeu) ele afirma que "Na verdade, o que o preguiçoso irmão de Hesíodo (e Marx e toda a tradição esquerdista, incluindo a não-marxista) ignora é que a riqueza não existe na terra ou no ar como algo que alguém simplesmente toma para si: ela é criada, e criada através do trabalho." de onde o autor tirou uma bobagem dessas ao afirmar que Marx disse algo parecido, ao contrário!!! Para Marx o trabalho é a base do materialismo dialético!!! Tem mais barbaridades e bobagens mas não vale a pena perder tempo. continuar lendo

Gostei muito. Parabéns! continuar lendo

Parei de ler aqui: "sobretudo as pessoas que rejeitam o liberalismo sem o conhecer (os esquerdistas, social-democratas, socialistas, marxistas, intervencionistas etc)," ignorância é dizer que Marx desconheceu o capitalismo, infelizmente os atuais liberais e conservadores brasileiros não se pautam mais pela honestidade intelectual, há vários sérios fora do Brasil que reconhecem a contribuição teórica de Marx, discordam de suas conclusões, mas esse achincalhe barato de Marx e dos marxinianos é pura retórica de quem intelectualmente acha que é alguma coisa, mas é limitado. continuar lendo

Nobre colega, sugiro a leitura O que os nazistas copiaram de Marx
por Ludwig von Mises (http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1518) disponível gratuitamente. Um abraço continuar lendo

Sr Emílio

O senhor não prestou atenção. O autor não criticou Marx, criticou o marxismo e os marxistas, juntamente com outros adeptos de doutrinas anti-liberais). Ele disse que os adeptos de doutrinas anti-liberais não conhecem o liberalismo, ele não afirmou que os teóricos anti-liberais não o conhecem.

De fato, a maior parte das manifestações de marxistas que eu vejo são carregadas de preconceito, ou seja, ideias sobre o liberalismo não fundamentadas no que o liberalismo realmente é.

Em relação ao marxismo, o senhor bem usou o termo marxiniano. Há livros marxinianos que afirmam que nem Marx era marxista (encontrei um no CCMN/UFRJ mas não me lembro o título/autor). Mas segue um texto que segue a mesma linha.
http://www.varican.xpg.com.br/varican/Diversos_2/Marxmarxista.HTM

Ou seja, criticar o marxismo é muito diferente de criticar Marx e muito menos dizer que Marx não conhecia o liberalismo. continuar lendo

Achille Arantes 1- sobre Marx veja o que o texto afirma "Como o famoso slogan de Marx, o irmão de Hesíodo parece acreditar que a cada um o trabalho deve ser exigido de acordo com sua capacidade, mas os frutos do trabalho devem ser “distribuídos” de acordo com a sua necessidade..." é por isso que eu coloquei que ele critica Marx, pega uma frase e generaliza. 2- Quanto ao termo "Marxista" X "Marxiniano" a diferença é quando se fala "Marxismo" estamos falando em um espécie de dogma, como o próprio Marx refutava essa leitura de sua própria obra, ele mesmo usa o termo "Marxiniano" no sentido que se trata, antes de mais nada, de uma ferramenta para compreensão do mundo, da história, etc. Seja como for grato pelo comentário e principalmente pelo conteúdo "não raivoso", independente das posições precisamos urgente recolocar os argumentos no centro do debate no lugar continuar lendo

Marco Paris o texto tem uma série de afirmações com as quais simplesmente não concordo e outras que são deduções do Sr.. Mises, aliás esse é o ponto central ele fala em polilogismo, e acusa Marx e oo marxismo de polilogismo, pois bem é ao contrário, não acho polilogismo seja uma teoria da lógica, pelo contrário, e mais uma negação da lógica que se fundamenta na verdade relativa subjetiva, diferente de Marx, que fala em verdades calcadas na objetividade e na prática e ação humana. Curiosamente as próprias "deduções" do Sr. Mises tem esse viés que eel crítica, essas sim são sim feitas sobre subjetividades. Quanto ao Nazismo e Marxismo, pois bem, poderia começar diferenciando pela questão da raça cuja proposta de segregação não existe em Marx; poderia falar de estatização, pois bem nem tudo que é estatização é socialismo, Engels mesmo já escreveu sobre o Capitalismo de Estado; ou falar ainda sobre controle democrático defendido por Marx e negado por Hitler, mas limito-me a dizer que antes de mais nada Hitler era um lunático e sua suposta "ideologia" um amontado de ideias copiadas e agrupadas de tal forma que mal merecem uma análise muita séria. Suas ações são sim seríssimas, mas ao fim e ao cabo ele manteve sim o capitalismo. Por fim, uma frase do artigo que você recomendou : "Nossas mentes simplesmente não são capazes de imaginar um mundo povoado por homens com estruturas lógicas distintas ente si ou com estruturas lógicas diferentes da nossa." Por isso é inútil discutir com os seguidores do Sr. Mises, eles só enxergam uma lógica: a deles! continuar lendo