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7 de Junho de 2020

Uma única lição de economia - Parte II

O homem e o trabalho.

Anne Silva, Advogado
Publicado por Anne Silva
há 5 anos

"Você pode imaginar um sistema político tão radical que torne mais de 20% dos mais pobres da população nos 20% mais ricos, ao invés de mantê-los no programa de ajuda aos pobres em uma década? Você não precisa imaginar. Chama-se Estados Unidos da América." – Thomas Sowell

O segundo adjetivo que imputam ao liberalismo é a pecha de ser um sistema explorador. Decorrente do primeiro equívoco, esta crença, ao contrário da primeira, é completamente falsa.

Crendo ainda que a riqueza simplesmente existe no mundo, sem ter sido artificialmente criada pelo engenho humano, ao voltar os olhos para o passado, os sistemas de pensamento social supõem que os primeiros homens viviam no melhor dos mundos, compartilhando toda a riqueza, até que alguns poucos, provavelmente os mais fortes, tomaram a riqueza para si e, egoisticamente, não quiseram compartilhá-la com seus semelhantes.

Este é o famoso mito do jogo de soma zero, o dogma de que, estando toda a riqueza concentrada nas mãos de uns poucos, e nunca sendo criada, resta apenas distribuí-la. Adicionalmente, crê-se que os “ricos” (em qualquer sentido) apenas são ricos por terem, num passado muito remoto, usado de força para tomar tal riqueza, “explorando” os pobres para tomarem seu quinhão, deixando-os mais pobres no processo.

É como se no mundo existissem sempre 100 moedas de ouro, e se, entre 100 pessoas, alguém possui mais de uma moeda, foi por ter “roubado” do outro. Daí a ojeriza da esquerda pela propriedade privada, crendo que ela, originalmente, foi um “roubo”. A conclusão inapelável e inescapável desta fé é que, como um roubo é um crime imoral e em tempos passados a injustiça da desigualdade teria surgido através da força, é completamente legítimo e o único caminho possível para a correção jurídica o uso inverso (e exagerado) da força contra os indivíduos da “velha” sociedade – seja através da revolução (marxismo-socialismo), seja através da intervenção (social-democracia), que, apesar de não pregar a morte dos “traidores”, ainda usa a força do estado para tomar à força riqueza produzida da população.

Uma nica lio de economia

O credo sempre aponta para uma utopia futura em que se busca atingir um paraíso vislumbrado num passado mitológico, de onde toda a humanidade apenas teria “decaído” (curiosamente, também um tema de Hesíodo). Como definido por Giacomo Leopardi, a felicidade sempre se encontra no passado ou no futuro, jamais no presente. Crendo numa versão imoral disso, o socialismo sempre pede sacrifícios à sua população e mais trabalho centralizado pelo estado, supondo um futuro glorioso – enquanto culpa o liberalismo por erros no liberalismo (ou erros antiliberais que ocorrem em sistemas de mercado).

Todavia, Giacomo Leopardi entende que a infelicidade é o estado natural do homem. Em Diálogo entre um Físico e um Metafísico, o metafísico prospecta que vida e infelicidade nunca se separam. A criação da felicidade é antinatural, uma novidade de tempos recentes. Ortega y Gasset, ao definir a sociedade das massas jogadas entre totalitarismos no séc. XX, lembra que o povo passa a considerar que os objetos da civilização são naturais e “dados” ou “tomados” por aí. Um carro, passa a pensar um homem que pode até vir a ser um intelectual, é um fruto da natureza, como se nascesse de uma árvore remota.

Se a fé da riqueza estanque possuísse credibilidade, não haveria crescimento econômico, nem diferenciação no PIB que não passasse exatamente para outro país. Com mais pessoas compartilhando a mesma riqueza, bastaria haver menos pessoas e o reino da igualdade seria mais próximo por mera diminuição da disputa. Os homens das cavernas, raros que compartilhavam o mundo inteiro, seriam muito mais ricos do que Bill Gates. Mesmo não tendo papel higiênico, telefone ou um computador para sua qualidade de vida. Em contraposição, o surgimento do liberalismo permitiu que uma população mundial fixa, marcada por mortes precoces e guerras, através das trocas livres duplicasse seu número aritmeticamente em 126 anos, depois em 33, em 13, 12 e até 11 anos.

O liberal não deixa de ser o pessimista social. O incréu das utopias, embora também existam as utopias liberais. Porém, é justamente o liberalismo que permite o enriquecimento dos pobres, muitas vezes estrondosamente rápido (a Coreia do Sul era um país mais pobre do que o Haiti na década de 50, e hoje sua classe baixa usa os carros que, importados no Brasil, apenas a elite da elite sonha em exibir). Isto se dá porque a riqueza criada é obrigatoriamente compartilhada. Alguém que crie um sistema que produza mais pizzas em menos tempo, e/ou a menor custo, mesmo que não queira, irá garantir mais riqueza para seus próximos – e por isso a ascensão da “burguesia” e do liberalismo se dá pelo comércio, a troca livre, sem coação. É a antiga díade entre Hermes, deus do comércio e das viagens, e Héstia, deusa do lar, familiar, sagrado e impenetrável.

Tão somente compreendendo que o estado natural do homem é a pobreza, e não a riqueza, pode-se compreender num esboço simples todos os erros de cálculo, método e objetivo dos críticos do liberalismo e do mercado. E através desta compreensão pode-se também contemplar melhorias que tornem o sistema que mais enriqueceu pessoas no mundo de maneira a recompensar cada vez mais os comportamentos mais justos.

FONTE

18 Comentários

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Esse texto está errado em tantos níveis que dá até gastura destrinchar cada argumento equivocado apresentado. Não tenho tempo para apresentar cada ponto, até porque essa maravilhosa sociedade liberal não me permite dispor livremente do meu tempo. Primeiro que o texto é obsoleto, ainda encara o mundo com uma bipolaridade entre liberalismo vs socialismo/comunismo, os trabalhas mais recentes demonstram que já estamos passando para outra era, novos desafios estão presentes e não existe mais a simples dicotomia entre liberalismo e socialismo. Segundo ponto, o texto apresenta a riqueza como uma recompensa recebida por um indivíduo que "trabalhou" ou foi mais "criativo" que os outros, francamente, esse argumento nem merece comentários, na sociedade atual é mais rico quem consegue colocar mais gente para trabalhar a seu favor de forma exploratória, poucos casos de pessoas que possuem mais riqueza por verdadeiro merecimento. O texto aponta indiretamente a riqueza como o objetivo de todas as pessoas, ignora o fato de que na pobreza existe também realização pessoal, seja por reconhecimento da comunidade, religião, fatores pessoais. Outro ponto é que a pobreza não é igual a miséria, existem pessoas consideradas pobres que seriam melhor descritas por pessoas que levam uma vida simples, sem luxos/consumo exacerbado. O texto não aponta os pros e contras de cada lado da moeda. O texto tem um ponto válido, o mundo é naturalmente desigual, faz parte da seleção natural, os mais aptos se sobrepõem aos menos aptos, mas o ser humano conseguiu ampliar essa desigualdade a níveis absurdos, se utilizando de métodos cruéis de exploração e controle para isso. continuar lendo

Respeito seu comentário, mas você cometeu vários equívocos:

1) "essa maravilhosa sociedade liberal não me permite dispor livremente do meu tempo" : Você culpa o liberalismo por força-lo a trabalhar. Ainda que vivêssemos como os índios, em aldeias, teríamos que trabalhar. É da condição humana e de todos os animais. Mesmo em um regime socialista, vc iria trabalhar, no entanto não teria a possibilidade de escolher onde, como nem onde trabalhar, como se pode em uma sociedade liberal.

2) "texto aponta indiretamente a riqueza como o objetivo de todas as pessoas": nesse ponto vc comete o mesmo equivoco de muitos. O dinheirismo e a busca pela riqueza não tem nada a ver com o modelo econômico adotado. Está na índole de cada um. Muitos que vivem em uma sociedade capitalista fazem aquilo que tem vocação. Em outros regimes, isso não seria possível. Vejo no socialismo muito mais ganância de alguns que querem o poder e riqueza, além da inveja e do egoísmo, daqueles que querem a "igualdade".

Sobre isso, Allan Kardec escreveu em seu livro "Evangelho Segundo Espiritismo"

"Se a riqueza fosse repartida com igualdade, no mundo atual, cada um teria uma parcela mínima e insuficiente, e que o equilíbrio em pouco tempo estaria desfeito, devido a diversidade das possibilidades dos homens;
Se nessa divisão, mesmo que fosse durável, tendo cada um somente com o que viver, o resultado seria o aniquilamento de todos os grandes trabalhos que incentivam o progresso e o bem estar da humanidade;
Deus concentra a riqueza em certos pontos, para que ela seja aumentada e dividida em quantidade suficiente, de acordo com as necessidades dos homens." continuar lendo

Excelente texto,

Há tempos que não vejo um semelhante no JusBrasil. Afinal, defender o neoliberalismo é abrir o peito para ser taxado com todo tipo de injúria e iniquidade.

Se existe algo no Brasil que é PECADO, não é ser narcotraficante (A Dilma pediu a intervenção por aquele que foi executado na Indonésia, retirando nosso embaixador de lá, rompendo um contrato bilionárias entre a Embraer e o Estado da Indonésia, e ainda de quebra ela - Presidente Dilma - ficou de construir um busto para o referido traficante)...

...ou corrupto (Tente xingar o Lula ou o Collor de Melo em algumas cidades do Nordeste para ver... o José Genoíno conseguiu um indulto, e por falar no Lula, ele teve até um filme "Lula, o Filho do Brasil")

No Brasil, o GRANDE PECADO é se auto-identificar como de direita neoliberal. Na Academia, logo fecham-se portas, projetos de pesquisa não apoiados, você é preterido em promoções internas, e seus alunos são igualmente retaliados, por serem alunos de um "neoliberal". Na mídia você recebe todo tipo de injúria e adjetivos. Nas redes sociais forjam matérias falsas para denegrir sua imagem.

Enfim... ótimo texto, mas apenas acrescentando, não existe "almoço de graça" na economia. Toda vez que você recebe um benefício sem trabalhar, alguém estará pagando para você recebê-lo.

O que motiva o indivíduo a dar duro é uma recompensa pelo esforço, do contrário ele não fará. Isso é inerente ao ser humano.

Quando aqueles que trabalham, se cansam de serem feitos de trouxas e querem participar do "trem da alegria" daqueles que vivem às custas do Estado. O país quebra. É o que está havendo lentamente com o Brasil...

Ninguém, hoje em dia, quer abrir uma empresa para trabalhar 12 horas ou mais por dia e ver a quase totalidade de seus lucros usurpados. Restam poucas alternativas... a mais usual (para aqueles que não querem viver de assistência estatal, ociosos, vendo tv o dia inteiro e tomando cerveja no boteco) é ir para o serviço público para ter uma rotina de trabalhar menor, em geral, não excede a 8 horas (Apesar de que muitos caras-de-pau de plantão irão dizer o contrário), no TCU, por exemplo, é 7 horas, além de ser bem flexível e ganhar bem mais do que você poderia ganhar como empreendedor ou funcionário na iniciativa privada.

Mas... quem paga a conta são os impostos arrecadados por meio das empresas. Serviço público, via de regra, não explora atividade econômico, então não gera riqueza, só consome. A conta um dia não irá fechar. continuar lendo

Ótimo comentário, Carlos Guilherme continuar lendo

O Socialismo é uma vigarice intelectualoide.
A prova são todos os governos socialistas. continuar lendo

A defesa do socialismo a cada quebra de um sistema socialista: "não era socialismo" continuar lendo

Sugiro que o autor do texto - e aqueles que se manifestaram favoravelmente - leiam o livro de um defensor do mercado (portanto, um não-socialista), THOMAS PIKETTY, O Capital no século XXI, e medite sobre os dados estatísticos que lá constam. Vá mais longe e busque na internet a entrevista que referido autor deu na TVE/SP de algumas semanas atrás (numa segunda-feira) e preste, igualmente, atenção às perguntas formuladas por OTO LARA REZENDE e também medite sobre os posicionamentos desse economista. Eu me assustei! continuar lendo

Thomas Piketty não é referência... ele defende a intervenção estatal.

Ele é defensor do mercado controlado pelo Estado, em uma simbiose que não tem nada de livre. Ele é totalmente contrário a Escola Austríaca.

O sucesso de Piketty veio depois dele defender a intervenção a estatal no livro dele. Quem o aplaudiu foram marxistas e os social democratas.

Em Harvad ele foi criticado, pois ele vai de encontro , sem usar argumentos muito fiáveis. O fato é... seu livro é um best-seller, dai veio a sua fama, mas o público alvo de seu livro não são outros economistas, mas o público leigo.

Lógico, com uma propaganda dessa para a causa, os marxistas Europa afora e sociais democratas o aplaudiram.

Aproveitando uma "maré de auto-promoção", a mesma que os ícones da cultura "pop" tem (claro, nos limites cabíveis), ele foi de programa em programa dando entrevista e fazendo previsão, do mesmo modo que perguntam ao Pelé sobre Geopolítica e ao Neymar sobre economia.

Não dá para levá-lo a sério. Pois é oportunismo visando auto-promoção. É como se por exemplo, grupos de direita neoliberal, começassem a atrair para a atenção da mídia um economista marxista que deixou de ser marxista, pouco importando o conteúdo dele. E esse economista vendo que isso traz fama, começasse a investir nessa "ideia".

O livre mercado não é perfeito. Como nada nesse mundo é. Mas a verdade seja dita, falta um debate mais sério. Por exemplo... por que não falar que a crise norte-americana da metade da década passada nos EUA teve como causa não o livre mercado desregulado, mas sim o fato do governo (intervindo na economia, o infame Bill Clinton) obrigar bancos conceder a população empréstimos que não poderiam pagar, gerando uma verdadeira bolha?

Ou que a crise da década de 70 (a penúltima crise) teve como causa o déficit público gerado pelo excesso de intervencionismo na economia?

Ou que a crise na zona do euro da década passada igualmente teve como causa intervenções no sentido de aumentar o déficit público (isso só é possível pela intervenção estatal) e conceder empréstimos vinculando as nações que compunham o bloco para outras nações que tinham uma chance alta de calote, como Espanha, Irlanda e Grécia?

E em que pese a suposta concentração de renda, o padrão de vida do brasileiro, europeu, norte-americano hoje, é bem superior ao que era 50, 100, 150, 200 anos atrás... isso é empírico. continuar lendo

Thomas Piketty tem razão ao dizer que a desigualdade econômica aumentou nas últimas décadas. Ele só se omite de notar que isso aconteceu junto com um aumento ainda maior do poder de controle dos governos sobre a conduta da população – um objetivo em cuja conquista se irmanam a militância socialista e o capital monopolista que o subsidia.
Esses processos não são independentes. Olhando propositadamente só a metade econômica do cenário, é fácil atribuir o mal a uma abstração chamada "capitalismo". É assim que o bandido sai limpo, culpando a vítima. A revista Exame, fingindo inocência, raciocina nessa linha e pergunta: "Por que o capitalismo é tão injusto?" É injusto mesmo: persegue quem o defende e enche de dinheiro quem o denigre. continuar lendo